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segunda-feira, novembro 16, 2009

"O mundo deve pagar pela Amazônia em pé"

Entrevista
Johan Eliasch, empresário e ambientalista

"O mundo deve pagar pela Amazônia em pé"

Leonardo Aattuch, IstoÉ Dinheiro


Dono de uma das maiores fortunas da Europa, o bilionário Johan Eliasch começou a jogar tênis aos cinco anos de idade, quando as raquetes ainda eram feitas de madeira. nascido na Suécia e radicado na Inglaterra, ele se tornou dono da Head, a maior fabricante de raquetes do mundo, que hoje são produzidas à base de metais como titânio e grafite.

Depois, adquiriu 400 mil hectares de terra na Amazônia, que foram comprados para garantir a preservação da área. e acabou se tornando uma das principais vozes no combate ao desmatamento, como representante especial do governo inglês para questões ambientais. Sua bandeira é a criação de um fundo global que financie a preservação.

"As árvores têm que ser mais valiosas em pé do que cortadas", diz. Leia a seguir a entrevista à dinheiro de Eliasch, que é casado com a brasileira Ana Paula Junqueira e um eventual parceiro de Gustavo Kuerten em partidas amadoras de tênis.

DINHEIRO - O sr. defende que os países ricos paguem pela preservação da Amazônia. De que maneira?
JOHAN ELIASCH -
O que defendo é a combinação entre os mercados de créditos de carbono e fundos não apenas governamentais, mas também de organismos multilaterais. Na fase inicial, os fundos teriam peso maior, mas, aos poucos, seriam substituídos pelos mercados de carbono.

DINHEIRO - Quanto dinheiro pode ser levantado?
ELIASCH
- Poderia começar com um fundo de US$ 7 bilhões, que seria o valor inicial para combater o desmatamento. Um custo pequeno, quando se leva em conta que o impacto econômico causado pelo aquecimento global pode chegar a US$ 1 trilhão ao ano.

DINHEIRO - Qual é o conceito por trás dessa ideia?
ELIASCH
- A filosofia é muito sim2009ples: a de que as árvores da floresta devem valer mais dinheiro em pé do que cortadas. Só assim o desmatamento pode realmente ser combatido.

DINHEIRO - Por quê?
ELIASCH -
Porque isso envolve áreas gigantescas. E a preservação só será alcançada se tivermos o compromisso das populações locais com o não desmatamento. Esse compromisso envolve uma recompensa financeira ou um incentivo econômico.

DINHEIRO - Os principais beneficiários desses fundos seriam as populações locais?
ELIASCH
- Certamente. Só assim será possível construir uma solução viável. É preciso dar a eles os incentivos para que o desmatamento não seja uma alternativa econômica.

DINHEIRO - O sr. avalia que os países ricos estarão dispostos a bancar um fundo desse tipo num momento de crise financeira?
ELIASCH
- Defendo que a questão do desmatamento não seja separada de outros debates que serão travados no encontro do clima, em Copenhague, como as metas de cada país para reduzir suas emissões. Assim como os países devem ter um orçamento para energia limpa, também devem ter recursos para combater o corte da floresta - que é parte importante do problema do aquecimento. E quanto mais tarde começarmos a encarar o problema, mais cara será a solução.

DINHEIRO - Qual é o custo de não se fazer nada?
ELIASCH
- Isso já não é mais possível. O que nós estamos estimando é algo em torno de US$ 1 trilhão por ano a médio prazo, um custo que o mundo não tem como suportar. Chegou a hora de agir

DINHEIRO - Como o sr. avaliou a decisão do Brasil de não levar metas de redução de emissões ao encontro de Copenhague, mas de se comprometer em reduzir em até 80% o desmatamento?
ELIASCH -
A decisão de assumir um compromisso tão agressivo, de 80%, me agradou, até porque o Brasil é a peça central desse jogo. E o Brasil só tem a ganhar com isso. Até porque é o país que mais pode vir a se beneficiar com a consolidação de um mercado de carbono e com a criação dos fundos para combater o desmatamento.

DINHEIRO - O sr. acha que o Brasil terá condições de fazer cumprir essa resolução?
ELIASCH
- É um grande desafio, mas penso que, sim, é possível reduzir em 80% o desmatamento.

DINHEIRO - Isso não significa deixar aberta uma janela de 20% para o crime? Por que não 100%?
ELIASCH -
As metas têm que ser realistas e passíveis de ser alcançadas. O desmatamento zero seria fantástico, mas, como meta, não acredito que possa ser atingido até 2020.

DINHEIRO - O Brasil pode se beneficiar com a criação de fundos pela preservação, mas o que tem a ganhar em outros setores se, de fato, vier a combater o desmatamento?
ELIASCH
- A produtividade da agricultura brasileira depende diretamente do ciclo de chuvas da Amazônia. Se o Brasil continuar cortando suas florestas, terá mais secas no Sul e dependerá cada vez mais da irrigação no Centro-Oeste. O Brasil tem uma das melhores carnes do mundo, mas não faz muito sentido abrir mais áreas na Amazônia para a pecuária. O Brasil terá muito a ganhar se vier a buscar meios mais eficientes de criar gado, ocupando menos terra.

DINHEIRO - Há um movimento internacional para que as pessoas consumam menos carne bovina, reduzindo o impacto da pecuária no aquecimento global. O sr. é adepto disso?
ELIASCH
- Não como carne bovina todos os dias. Faço isso uma vez por semana, no máximo. E é uma escolha consciente. O Brasil tem que buscar uma pecuária mais produtiva. Cortar árvores na Amazônia permite criar gado durante dois ou três anos; depois disso, o solo estará devastado.

DINHEIRO - Qual a sua posição sobre os biocombustíveis?
ELIASCH -
É preciso medir de forma precisa o impacto ambiental dos biocombustíveis. Há situações em que o balanço é negativo e, portanto, não faz sentido subsidiar um setor utilizando um pretexto ambiental, sem que realmente existam benefícios.

DINHEIRO - Muitos avaliam que o Brasil tem o balanço mais eficiente no setor.
ELIASCH
- Sim, não há dúvida de que o balanço ambiental do etanol brasileiro é muito mais favorável do que o dos Estados Unidos, feito a partir do milho.

DINHEIRO - Com o peso que tem na questão ambiental, o Brasil deveria liderar as discussões em Copenhague?
ELIASCH -
O Brasil não deveria se sentir pressionado pela comunidade internacional porque todos os países do mundo sofrem pressões para reduzir emissões. O Brasil é o líder natural porque é parte da solução.

DINHEIRO - Que experiências positivas o sr. já viu no Brasil?
ELIASCH -
A Fundação Amazonas faz um excelente trabalho. Além disso, conheci empresas florestais que são cuidadosas e só extraem madeira certificada, dentro dos limites da sustentabilidade.

DINHEIRO - E o Bolsa Floresta, do governo do Amazonas, que concede um incentivo ao não desmatamento?
ELIASCH
- Foi uma grande iniciativa do governador Eduardo Braga e tem muito a ver com aquilo que nós recomendamos: a concessão de incentivos financeiros para que as comunidades locais assumam um compromisso pela preservação da floresta.

DINHEIRO - Qual é o papel das empresas e do consumidor? Algumas redes de varejo no Brasil, por exemplo, não compram mais carne que venha de regiões de desmatamento.
ELIASCH
- O setor corporativo deve estar engajado nessa batalha, pois, se não houver mercado para os produtos de regiões que desmatam, não haverá mais desmatamento. É fantástico que isso esteja ocorrendo no Brasil. E quanto mais conscientizados estiverem os consumidores, melhor.

DINHEIRO - O consumidor está disposto a pagar mais pelos produtos verdes?
ELIASCH
- No mundo desenvolvido, isso está acontecendo e contribuindo para uma mudança na agenda das empresas. Em países como o Brasil, imagino que aconteça nas classes mais altas, mas é uma tendência.

DINHEIRO - Dentro da sua empresa, a Head, o que é feito em prol da sustentabilidade?
ELIASCH
- O que buscamos é um balanço neutro no que diz respeito às emissões de carbono. Além disso, queremos desenvolver produtos que utilizem cada vez menos recursos naturais. Por fim, temos uma parceria com a Cool Earth, que visa disseminar a responsabilidade ambiental entre as empresas. E preservamos uma área do tamanho de 100 mil quadras de tênis.

DINHEIRO - O sr. acredita num acordo internacional do clima, com tantos países envolvidos e o ressentimento dos emergentes em relação ao fato de os ricos já terem desmatado?
ELIASCH -
O que posso dizer é muito simples. Nós estamos onde estamos. E se os países ricos tiveram mais responsabilidade no passado, o que se deve olhar não é só para as emissões de hoje, mas para o volume histórico de emissões. Isso será levado em conta em Copenhague para que a solução proposta seja justa e aceitável.

DINHEIRO - Como o sr. se tornou um ambientalista?
ELIASCH
- Sempre tive interesse no tema, como empresário e como um esportista eventual, que também gosta de esquiar. E, de alguns anos para cá, percebi que a situação se tornou urgente. O mundo não foi preparado para uma população de seis bilhões de pessoas e que caminha para nove bilhões, com o padrão de consumo atual. Precisamos ajustar nossos hábitos para nos proteger da autodestruição.

DINHEIRO - E como o sr. se tornou representante do governo inglês?
ELIASCH -
Durante muito tempo, participei das discussões de política externa e política ambiental, como membro do gabinete paralelo do partido conservador britânico. Depois disso, fui convidado pelo primeiro-ministro Gordon Brown para assumir essa tarefa e aceitei o desafio.

DINHEIRO - Sua esposa, a brasileira Ana Paula Junqueira, é candidata a deputada federal pelo Partido Verde e apoia a presidenciável Marina Silva. Marina é também sua candidata?
ELIASCH -
Não voto aqui. Mas se Marina é a candidata da minha esposa, tem que ser também a minha.

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