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quinta-feira, setembro 24, 2009

A criatura e o Criador

A criatura e o Criador
Myron Scholes ganhou um Nobel ao descobrir a fórmula que abriu caminho para o crescimento do mercado de derivativos - hoje mais conhecidos como "armas financeiras de destruição em massa"

Por Tiago Lethbridge, de Nova York 03.09.2009 00h01

A história está repleta de cientistas que, como Victor Frankenstein, se arrependem ao perceber que ajudaram a criar monstros -- sempre, claro, com a melhor das intenções. O brasileiro Santos Dumont não gostou nada de ver que seu avião estava sendo usado como arma de guerra no início do século 20. Anos depois de liderar as pesquisas que resultaram na primeira bomba atômica, o físico americano J. Robert Oppenheimer se autoproclamou o "destruidor de mundos". No caso de Alfred Nobel, inventor da dinamite, a ficha caiu quando um jornal francês publicou seu obituário antes da hora. "O doutor Alfred Nobel, que enriqueceu ao encontrar maneiras de matar pessoas mais rápido, morreu ontem", dizia o obituário. Para lustrar seu legado, o químico sueco decidiu criar um prêmio destinado a homenagear os que mais se destacassem em seu campo de conhecimento.

Em 1997, o economista Myron Scholes foi agraciado com o prêmio Nobel. Seu feito: ter criado, nos anos 70, a fórmula que permitiu o crescimento do mercado de derivativos, um colosso hoje estimado em 1 quadrilhão de dólares. Segundo o comunicado da Academia Sueca, a descoberta de Scholes fez com que bancos, principalmente bancos de investimento, se tornassem mais protegidos contra o risco. Hoje, como se sabe, os derivativos são considerados um dos fatores que levaram à maior crise financeira desde a Grande Depressão. Warren Buffett chegou a apelidá-los de "armas financeiras de destruição em massa". E os tais bancos que julgavam ter eliminado o risco acabaram quebrados. Scholes, que foi um dos criadores do fundo Long Term Capital Management, resgatado pelo banco central americano no fim dos anos 90, e hoje dirige a Platinum Grove Asset Management, deu a seguinte entrevista a EXAME.

O senhor foi apelidado de pai intelectual dos derivativos exóticos, aqueles que, nas palavras de Alan Greenspan, amplificaram a crise. Dá remorso?
Não. Até porque sempre achei que, se eu não tivesse descoberto o que descobri, alguém o teria feito. Me orgulho muito do que fiz. Até 1973, as pessoas usavam a intuição para negociar opções. Meu modelo apenas ajuda a intuição delas. Albert Einstein e os outros cientistas que trabalharam na energia atômica não ficaram pensando: "Nossa, o que eu fiz!" Bom, na verdade, alguns até que se arrependeram. Mas eu sou um cara que pensa positivo.

Warren Buffett recomendou aos investidores que tomassem cuidado com "nerds carregando fórmulas" -- ou seja, gente como o senhor. Qual é o problema com as fórmulas?
Mas ele próprio é um nerd com uma fórmula! Ele fala mal dos modelos de risco, mas um instante depois elogia sem parar o modelo de (Benjamin) Graham para precificar ações. Para ele, esse não é um modelo nerd. Só pode ser porque é simples o bastante para que ele consiga entender. Quando você não entende uma coisa, é mais fácil chamar essa coisa de nerd.

Mas os modelos de risco não foram um fracasso?
Os modelos eram muito bons, na verdade. O problema é que instituições como a AIG entregaram modelos muito sofisticados para gente que não sabia usá-los. Você produz um Lamborghini e dá a chave a um motorista inexperiente. Ele arrebenta o carro. A culpa é do carro?

Tudo bem, mas os investidores não subestimaram o risco?
Essa é uma pergunta difícil. É possível que as pessoas tivessem incluído um evento como o colapso do Lehman Brothers nos modelos? Sim, da mesma forma como você calcula o risco de atravessar a rua em seus próprios modelos. Mas a probabilidade de morrer desse jeito é baixa e o risco não te impede de atravessar a rua, impede? O problema, na verdade, foi o volume de dívida que todos acumularam. As pessoas achavam que o mundo estava mais calmo, começaram a acumular dívidas e, com isso, a assumir mais risco. Quando o choque veio, o efeito foi muito maior do que seria se não houvesse tanta dívida.

O acúmulo de risco não foi, justamente, consequência da sensação de segurança que esses modelos transmitiram?
Os derivativos protegem uma pessoa contra um risco específico, mas outra pessoa fica exposta. Você transfere o risco e o transfere pelo sistema. Transferimos risco para a Europa, por exemplo, e todos foram atingidos pela crise. A sensação de segurança pode não ter nada a ver com o perigo real. Posso fazer um seguro contra terremotos para minha casa na Califórnia. Se um terremoto acontecer e minha casa for a única ainda em pé, eu perco muito dinheiro. Por quê? Eu tinha seguro, mas era o seguro errado. Algumas instituições arriscaram mais do que deveriam porque achavam que tinham transferido o problema. E isso tornou o sistema mais arriscado.

No ano passado, ouvimos que Wall Street nunca mais seria a mesma após a crise. Mas o banco de investimento Goldman Sachs, por exemplo, está tendo lucros recordes em 2009 em razão de um crescente apetite pelo risco. Aprendemos alguma coisa com a crise?
No caso do Goldman, se você é considerado grande demais pra quebrar e tem o governo por trás, é claro que vai assumir mais riscos. Se você acerta, ganha muito dinheiro. Se erra e perde, o governo injeta mais dinheiro para te proteger. Outras instituições que não estão nessa categoria, como fundos de investimento, estão transferindo seu risco para bancos como o Goldman, que faz dinheiro cobrando uma comissão alta. Se uma parte do sistema financeiro é sustentada pelo governo, pode arriscar mais, à custa de quem tem de se proteger sozinho. Mas esse fenômeno do Goldman é de curto prazo.

Por quê?
Quando surgir a nova regulação do sistema financeiro, o governo vai exigir que os bancos tenham mais capital e menos dívida em seus balanços, e isso vai significar menos riscos. Eles estão se beneficiando de um período de transição antes da regulação.

Quem é contra uma forte regulação dos bancos alega que isso impediria a "inovação financeira". Mas os americanos, quando pensam em inovação financeira, lembram de derivativos exóticos, ativos tóxicos e suas consequências. Eles estão errados?
É difícil dar um tapinha nas costas dos bancos depois que eles causaram esse desastre. É claro que a inovação pode dar errado. Se você tivesse certeza que um produto daria certo, já teria inventado. Ninguém garante que algo inovador será bom. Mas o empacotamento de hipotecas em produtos financeiros foi uma ótima ideia e permitiu que o financiamento de casas crescesse. A inovação dos últimos anos permite, por exemplo, que eu pegue meu cartão de crédito, vá a um caixa eletrônico no Rio de Janeiro e saque dinheiro.

Mas cuidado com o ladrão.
Esse é exatamente meu ponto. A inovação é boa na maior parte do tempo, mas eu posso ser roubado. A culpa é da inovação? Agora, é claro que, hoje, é justo perguntar: se não tivesse havido tanta inovação e a crise não tivesse acontecido, o custo para a sociedade teria sido menor? Eu não sei.

O escritor Nassim Taleb, autor do livro Cisne Negro, disse que o senhor deveria estar em casa jogando sudoku, e não administrando um fundo e dando opiniões sobre a crise.
Bem, ele quer vender livros. Uma maneira de vender livros é atacando as pessoas. A outra é escrevendo bons livros. Taleb é um bom escritor, sem nenhuma ideia original. E passa mais tempo pensando em mim do que eu nele.

Para a revista britânica The Economist, o colapso do Long Term Capital Management, em 1998, foi a crise financeira de 2008 em miniatura. O que nós não aprendemos com o LTCM?
No caso do LTCM, tínhamos dívidas demais e arriscamos demais. Basicamente, é o mesmo fenômeno. A lição do LTCM é que é preciso se preparar para um choque. Ou seja, ter menos dívida e arriscar menos. Ainda assim, você nunca sabe o tamanho do choque que virá. E isso faz toda a diferença.

Estamos condenados a viver crises como a de 2008 de novo?
Veja, nós precisamos de risco. Nós queremos acidentes. Se todos dirigissem a 3 quilômetros por hora, não seria um tédio mortal? Se não houvesse risco, você não escreveria artigo nenhum. E, quando as coisas estão calmas, é natural que tomemos mais risco. Com o tempo, nós esquecemos como as crises nos machucaram. Os mais jovens, que não passaram por isso, acabam arriscando mais. Quando eu era criança e comecei a esquiar, eu era muito cuidadoso, depois arrisquei muito mais. Hoje, sou velho e tomo cuidado de novo. Mas faço curvas maiores.

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