Últimas 100 Atualizações do Website via Twitter:

Pesquise todo o conteúdo do website Horus Strategy abaixo:
Loading

segunda-feira, junho 15, 2009

Geração espontânea e bolha

Geração espontânea e bolha

DE NOVA YORK - Muito se tem falado sobre os tais "brotos verdejantes" que estariam aparecendo em vários pontos da economia norte-americana. Seriam uma sinalização de que o pior já passou.

Afinal, o recente otimismo dos mercados, até mesmo na Bolsa de Nova York (+35% desde março), seria reflexo da recuperação, certo?

No mundo antigo, era corrente a crença de que a vida surgia naturalmente da matéria inerte. Moscas nasciam da carne em putrefação, ensinavam Aristóteles e outros gregos. Até o século 17, ainda acreditava-se que ratos eram gerados de pilhas de lixo e que camundongos surgiam para a vida a partir de montes de trigo deixados pelos cantos.

Aparentemente, esse obscurantismo está de volta. Assim como a euforia dos mercados, que sobem quase consistentemente, resvalando nos níveis pré setembro de 2008, no auge da crise.

Neste mundo de otimismo, o Lehman Brothers não quebrou, 6 milhões de norte-americanos não perderam seus empregos, General Motors e Citigroup são duas rochas e as contas públicas norte-americanas e da maioria das grandes economias nunca estiveram tão saudáveis.

Infelizmente, os fatos acima geraram matéria quase inerte -- e ocorreram há pouquíssimo tempo.

Em tempos de apreensões aerodinâmicas, vale a comparação: economias podem ser tomadas por aviões. Quanto maior o número de turbinas em operação e o uso do combustível disponível, maior a sua velocidade.

Hoje, a economia norte-americana tem praticamente uma única turbina funcionando: os gastos públicos. E ela opera em potencia baixíssima. Do plano de gastos fiscais de US$ 787 bilhões do governo Barack Obama, uma parcela ínfima foi gasta até agora.

As outras turbinas ou estão apagadas ou em "reverso", agindo contra o movimento para frente da aeronave.

Por mais de uma década, a economia dos EUA cresceu mediante o funcionamento de dois poderosos motores: o aumento da oferta de crédito e dos preços dos imóveis. Os dois elementos proporcionavam uma "sensação de riqueza" cada vez maior entre os consumidores, que respondem por 70% do PIB do país.

Hoje, os preços dos imóveis não param de cair e a oferta de crédito diminui mês a mês. E os bancos perdem cada vez mais dinheiro no mercado imobiliário, com milhões de desempregados deixando de pagar financiamentos. O que só alimenta o ciclo de redução no crédito, cujo volume encolheu 7,4% em termos anualizados até abril.

É preciso ter sempre em mente que todo o dinheiro disponível no mundo são só luzinhas em telas de computadores. Digitamos senhas e olhamos saldos bancários virtuais. Se todos os clientes de seu banco fossem sacar o que acreditam ter em saldos hoje, o banco estaria quebrado à noite.

As intrincadas e exóticas operações financeiras dos últimos anos criaram uma riqueza virtual gigantesca e multiplicaram rapidamente os zeros à direita luminosos que vemos nessas telas, seja no saldo de aplicações em títulos do Tesouro, CDBs ou ações.

É essa enorme riqueza virtual que parece estar inflando novamente os mercados.

Ao que parece, voltamos à alegria de uma nova bolha.

Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.

E-mail: fcanzian@folhasp.com.br

Bookmark and Share

0 Comments:

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home

Copyright © 2002 / 2014 HorusStrategy.com.br. Horus Strategy é marca registrada. Todos os direitos reservados.