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segunda-feira, maio 04, 2009

Sem tempo

Sem tempo

Eliana Cardoso
30/04/2009

"Um homem não tem tempo na vida para ter tempo para tudo. (...) Precisa
amar e odiar ao mesmo tempo. Rir e chorar com os mesmos olhos. Com as
mesmas mãos, atirar e juntar pedras. (...) Um homem não tem tempo. Quando
perde procura. Quando encontra esquece. Quando esquece ama. Quando ama,
começa a esquecer." Os versos são de Yehuda Amichai, que também diz que
esse mesmo homem sem tempo tem "de comer e digerir o que a história leva
anos e anos a fazer".


A história que precede a crise de 2009 é longa. Para encontrar seu
remédio, seria preciso diagnóstico correto. Como ele é difícil de
produzir, os políticos, que não têm tempo a perder, farão muitos erros na
pressa de decidir nosso destino econômico antes que as eleições de 2010 os
transformem a eles também em passado.


Análises identificam como causa primeira da crise a política monetária
americana, que, tendo sido muito frouxa entre 2004 e 2006, não freou a
bolha de preços no mercado imobiliário, nem o crescimento excessivo do
crédito ou o encurtamento exagerado do prêmio de risco de muitos ativos.


A política monetária frouxa se traduz em taxas de juros baixas demais.
Elas alimentam o crescimento exagerado do crédito e o preço exageradamente
alto dos ativos. Acarretam endividamento excessivo dos consumidores e das
empresas. Ajudam a criar otimismo descabido acerca da capacidade de
pagamento dos devedores.


Os desequilíbrios se acumulam, até que quem executa a política monetária
se pergunta o que fazer. Se o banco central tenta aumentar as taxas de
juros, a inadimplência aumenta e a bolha estoura. Fica então impossível
refinanciar dívidas. A quebradeira se instala. A bolha chega ao fim. O fim
da bolha é o início da crise.


Mas durante o boom de 2004 a 2006, como o banqueiro central poderia saber
que uma bolha se encontrava em formação? Se a inflação se mantinha sob
controle e o nível de emprego parecia razoável, o aumento do preço dos
ativos justificaria o arrocho monetário? E como ter certeza de que o
arrocho, que haveria de arrefecer o crédito, poderia desfazer a bolha sem
causar uma crise?


Tanto quanto o investidor, o banqueiro central não sabe se o crescimento
dos preços dos ativos é uma bolha. E a ação do banco central para prevenir
as bolhas seria desnecessária se as instituições financeiras estivessem
tomando as decisões acertadas. Elas o fariam desde que algumas condições
prevalecessem. Se elas trabalhassem para maximizar o retorno de longo
prazo de suas carteiras e calculassem esse retorno tomando em consideração
o risco das aplicações. Se os incentivos as forçassem e a seus gerentes a
se concentrarem nos ganhos da empresa no longo prazo em vez de buscar o
lucro imediato. Se aqueles que avaliam riscos fossem responsáveis pelos
erros de avaliação e punidos. Se existissem informação transparente e
supervisores competentes.


Como a realidade não satisfaz as condições enumeradas, a política
monetária e a taxa de juros não são suficientes para manter o mundo
financeiro em bom funcionamento. Melhor do que condenar a política
monetária de Greenspan (que todos festejavam até a sua derrocada) é
entender a necessidade dos governos de repensar com cuidado práticas e
regimes. Que formas de compensação salarial contribuíram para a crise?
Como regulamentá-las? Como definir e impor uma estrutura de regras que
limite o comportamento de risco e force as instituições financeiras a
manter o capital adequado para enfrentar choques adversos?


A segunda explicação para a crise reside nos desequilíbrios externos entre
os países poupadores (como a China) e os EUA (que gastavam muito além de
sua renda). Os consequentes superávits em conta corrente dos poupadores
estariam por trás dos grandes fluxos de capital para os EUA, que forçavam
para baixo as taxas de juros em dólar e impulsionavam o boom financeiro
entre 2005 e 2008.


Na verdade, menores fluxos em conta corrente não seriam impedimento para
que gigantescos fluxos de capitais tivessem ocorrido, motivados pela
integração financeira e por inovações na área de informação e comunicação.
De acordo com os livros-textos, num mundo competitivo de informação
perfeita, esse movimento de capitais haveria de contribuir para maior
eficiência econômica.


Acontece que a globalização trouxe mais rapidez, inovações e menores
custos num mundo imperfeito. E nesse mundo os riscos não foram bem
monitorados. Reguladores de diferentes países e os empacotadores de ativos
não compartilharam informações relevantes.


Assim, quem deve levar a culpa da crise financeira? Dificilmente ela
caberá aos desequilíbrios em conta corrente. Devemos atribuí-la à inovação
financeira? Será que a complexidade estimula a fraude? Alguns cálculos de
risco estão além da capacidade das instituições financeiras?


O fato é que precisamos entender melhor o mundo onde a informação tem um
preço alto e os incentivos estão mal alinhados entre investidores e
intermediários. Nesse mundo, um passo importante é reconhecer que a
globalização e a integração financeira exigem regras consistentes entre os
diferentes países. A colaboração internacional será necessária para manter
as crises sob controle, pois as inovações financeiras continuarão a ser
rápidas e surpreendentes. Seria inútil tentar impor limites aos fluxos
financeiros internacionais para manter problemas potenciais sob controle.
E, se regras para controlar os fluxos de capitais não funcionam, a ideia
de impor controles aos países com saldos positivos em conta corrente é
ainda mais descabida.


Enquanto a crise rola, nosso governo se apressa em conceder isenções
fiscais a torto e a direito. Dentro de um ou dois anos, a velha dinâmica
da dívida pública, que no ano passado se acreditou morta, poderá
ressuscitar. Embora a queda da Selic reduza a pressão para a geração de
grandes superávits primários, o peso da recessão e a incerteza sobre as
eleições de 2010 cobrarão seu preço.


Eliana Cardoso é professora titular da EESP-FGV e escreve, quinzenalmente,
às quintas-feiras


Home page: www.elianacardoso.com

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