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terça-feira, março 24, 2009

Preço das ações é o entrave à fusão entre Perdigão e Sadia

Mariana Barbosa da Folha

As negociações entre Sadia e Perdigão foram oficialmente interrompidas há
cerca de dez dias, mas banqueiros e advogados seguem conversando na
tentativa de superar impasses. As empresas concordam com um modelo de troca
de ações e com a listagem da nova empresa no Novo Mercado. O impasse se dá
na questão do preço das ações e no tamanho da participação que os
controladores da Sadia, as famílias Fontana e Furlan, terão no novo
negócio.

Segundo fontes ouvidas pela reportagem, as famílias Furlan e Fontana, donas
da Sadia, concordam em uma troca de ações com os papéis da sua empresa
cotados a R$ 8, enquanto os fundos de pensão que controlam a Perdigão
estariam dispostos a chegar a R$ 6. Nessa operação, os acionistas da
Perdigão, capitaneados pela Previ, fundo de pensão dos funcionários do
Banco do Brasil, seriam majoritários na nova empresa.

Os acionistas dos dois grupos deixaram a mesa de negociação, mas as
conversas continuam por meio do Banco Bradesco de Investimentos e o
escritório Barbosa, Müssnich & Aragão, pelo lado da Sadia, e UBS Pactual e
Bocater, Camargo, Costa e Silva, pela Perdigão.

Sem querer alterar sua proposta, executivos da Perdigão preferem dizer que
as negociações acabaram - teor de um comunicado enviado ao mercado na
semana passada. Já a Sadia não esconde que as negociações continuam - como
foi dito em comunicado também na semana passada - e executivos da empresa
têm dito que essa não seria a única alternativa, pois haveria investidores
estrangeiros interessados. `O que emperra (as negociações com a Perdigão) é
a relação da troca de ações`, disse ontem o presidente do Conselho de
Administração da Sadia, Luiz Fernando Furlan, em Vitória de Santo Antão,
Pernambuco, na inauguração de uma nova fábrica.

Pelos cálculos da Link Corretora, caso o preço das ações da Sadia seja
fixado em R$ 6, a empresa estaria sendo avaliada em R$ 3,4 bilhões
(incluindo o pagamento de 80% de tag along para os acionistas
minoritários), fora o valor da dívida, que no terceiro trimestre era de R$
4 bilhões. Na sexta-feira, a Sadia divulga o seu balanço e o real
endividamento será conhecido. Pela estimativa da corretora Brascan, o
prejuízo no quarto trimestre, puxado pelas perdas com derivativos cambiais,
deve ser de R$ 2 bilhões. A R$ 8 por ação, ainda segundo cálculos da Link,
a Sadia estaria sendo avaliada em R$ 4,5 bilhões, mais a dívida.

Do capital total da nova empresa, a Perdigão ficaria com uma participação
de 60% a 70% e a Sadia com 40% a 30%. E um dos impasses na negociação é
justamente a participação das famílias Fontana e Furlan. Hoje, os Furlan
detêm 10,4% das ordinárias e 3,92% do capital total. Os Fontana detêm
14,12% das ordinárias e 5,31% do capital total. Caso a operação seja
fechada com a ação da Sadia a R$ 6, a Perdigão estaria pagando pela
participação das famílias Furlan e Fontana R$ 160 milhões e R$ 217 milhões,
segundo cálculos da Link. A R$ 8, como quer a Sadia, a participação das
famílias Furlan e Fontana valeria R$ 214 milhões e R$ 290 milhões.
Entretanto, segundo fontes, a intenção das famílias é permanecer no negócio
e esperar a valorização das ações.

INTERESSE

Enquanto a Perdigão diz que não quer, a Sadia - que precisa de uma
capitalização de R$ 1,5 bilhão a R$ 2 bilhões para equacionar suas dívidas
- tenta, com potenciais investidores estrangeiros, sensibilizar o governo,
que diz ter todo o interesse de que a empresa permaneça nas mãos de
brasileiros. `O governo quer que se chegue a um bom resultado`, disse o
ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes. `Sempre desejamos que a Sadia
continue brasileira mas, fundamentalmente, queremos que ela continue
operando no mercado.`

Perdigão tem perda trimestral de R$ 20 milhões
Tatiana Freitas

A Perdigão registrou um prejuízo de R$ 20 milhões no quarto trimestre, ante
um lucro de R$ 98 milhões registrado no mesmo período de 2007. No ano, a
empresa obteve um lucro de R$ 54 milhões, queda de 83% na comparação com
2007. A receita bruta da Perdigão no quarto trimestre foi de R$ 3,57
bilhões, aumento de 57%. No ano, a receita chegou a R$ 13,1 bilhões, um
crescimento de 69%. Segundo a empresa, porém, o impacto da variação cambial
sobre a exposição financeira em moeda estrangeira da Perdigão prejudicou o
resultado da companhia no quarto trimestre. Segundo o diretor Financeiro e
de Relações com Investidores da empresa, Leopoldo Saboya, a Perdigão
registrou despesas financeiras líquidas de R$ 384 milhões entre outubro e
dezembro do ano passado, dos quais R$ 320 milhões podem ser atribuídos
exclusivamente ao comportamento do câmbio. O prejuízo de R$ 20 milhões
reportado pela Perdigão nos três últimos meses de 2008 é o primeiro
resultado negativo para um quarto trimestre em pelo menos cinco anos.
Apesar do impacto negativo do resultado financeiro, o quarto trimestre
mostrou também uma melhora no desempenho operacional. O crescimento dos
volumes comercializados no mercado interno e do efeito dos maiores preços
de exportação no período foram destacados pelo presidente da companhia,
José Antonio Fay.

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