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segunda-feira, agosto 25, 2008

NYT Magazine: Economista previu crise econômica que atingiu os EUA

22/08 - 18:21 - The New York Times


No dia 7 de setembro de 2006, Nouriel Roubini, um professor de economia da New York University, se colocou diante de uma platéia de economistas no Fundo Monetário Internacional e anunciou que uma crise estava surgindo. Nos meses e anos seguintes ele advertiu que os Estados Unidos provavelmente enfrentariam uma eclosão imobiliária como nunca vista, um impacto nos preços do petróleo e um agudo declínio da confiança do consumidor - basicamente, uma recessão profunda.

Ele descreveu uma desanimadora seqüência de eventos: mutuários inadimplentes, trilhões de dólares em títulos vinculados a financiamentos de imóveis se desenredando pelo mundo e o medo paralisando o sistema financeiro global. Estas ações, continuou ele, poderiam desestabilizar ou arruinar os hedge funds, os bancos de investimentos e outras grandes instituições financeiras, como a Fannie Mae e a Freddie Mac.

Quando Roubini desceu do palco de onde proferia a palestra, o moderador do evento disse, em tom de gracejo: "Acho que vamos precisar de uma bebida bem forte depois disso tudo". O público presente riu – e com razão. Na época, os índices de desemprego e de inflação mantinham-se baixos, e a economia, embora fraca, continuava a crescer, apesar dos preços de petróleo em alta e do mercado imobiliário se enfraquecendo.

O começo da crise

Porém, as previsões de Roubini logo provaram ser reais. No ano seguinte, concessores de empréstimos subprimes começaram a pedir falência, hedge funds entraram em queda e o mercado de ações entrou em colapso. Havia o aumento do desemprego, a depreciação do dólar e uma evidência crescente de que uma crise imobiliária iria estourar, seguida de uma onda de pânico nos mercados financeiros em função da crise do crédito. No final do verão, o Federal Reserve, o Banco Central americano, fez a primeira de uma série de intervenções nada ortodoxas na economia, dentre elas o corte de 50 pontos na taxa de empréstimos e a compra de dezenas de bilhões de dólares de MBS (títulos lastreados em hipotecas).

No decorrer do ano passado, todas as vezes que os otimistas declaravam a pior crise econômica chegando, Roubini se opunha com imperturbável pessimismo. Em fevereiro, quando a sabedoria convencional afirmou que as veneráveis firmas de investimentos de Wall Street resistiriam à crise, Roubini avisou que algumas delas iriam "estourar" – e seis semanas depois a Bear Steans quebrou.

Seguindo outras ações extraordinárias do Fed na primavera – dentre elas a disponibilização de linhas de crédito para alguns bancos de investimentos e corretoras de valores - muitos economistas proclamaram o fim da crise de créditos e a recessão afastada. Roubini se manteve firme a seu roteiro de pesadelos: ondas de falências corporativas, colapso do mercado imobiliário e de títulos municipais e, o mais alarmante, a possível bancarrota de um grande banco regional ou nacional que geraria pânico por parte dos depositários. Nem todos estes eventos chegaram a acontecer, mas a liquidação do banco californiano IndyMac – uma das maiores falências do gênero na história americana – chamaram ainda mais atenção para as premonições de Roubini.

Como resultado, Roubini, um acadêmico respeitado, mas, até então, desconhecido, se tornou uma figura importante no debate público sobre a economia: o vidente que prognosticou o que viria a acontecer. Ele foi convocado para falar diante do Congresso, do Conselho de Assuntos Estrangeiros e do Fórum Econômico Mundial de Davos. Ele se tornou um conselheiro requisitado, que passa a maior parte do tempo na ponte aérea, entre uma reunião e outra com líderes de bancos centrais e ministros da Fazenda da Europa e da Ásia.

As autoridades econômicas parecem estar se aproximando, ainda que espasmodicamente, da maneira como o professor vê as coisas acontecerem. "Nos últimos meses, me tornei mais pessimista do que o consenso", contou-me no início deste ano o ex-secretário do Tesouro americano, Lawrence Summers. "As palavras de Nouriel certamente contribuíram para isso".

Em um dia frio e lúgubre do último inverno, almocei com Roubini na região de TriBeCa em Nova Iorque. "Não sou um pessimista por natureza", ele insistiu em dizer. Achei difícil acreditar na declaração. Com um jeito obstinado e uma aura melancólica, Roubini dá a impressão de estar permanentemente aflito, como se o fardo do que sabe fosse pesado demais para suportar.

Aos 50 anos, Roubini sempre foi um estrangeiro. Nascido em Istambul, filho de judeus iranianos, sua família se mudou para Teerã quando ele tinha dois anos; em seguida para Tel Aviv e finalmente para a Itália. Ele mudou-se para os Estados Unidos para cursar seu doutorado em economia internacional em Harvard.

Após concluir seu Ph.D. em 1988, Roubini passou a integrar o departamento de economia de Yale, onde conheceu e começou a compartilhar idéias com Robert Shiller, o economista atualmente conhecido por suas advertências prescientes em relação à bolha tecnológica dos anos noventa.

Análise mundial

A década de noventa foi uma época repleta de eventos para um economista internacional como Roubini. Durante toda a década, uma série de economias emergentes foi perturbada por crises, começando com o México em 1994. O pânico varreu a Ásia, incluindo a Tailândia, a Indonésia e a Coréia, em 1997 e 1998. As economias do Brasil e da Rússia implodiram em1998, o mesmo ocorrendo com a Argentina em 2000. Roubini começou a analisar estes países e logo identificou fraquezas em comum entre eles.

Na véspera da crise que abateu estes países, ele percebeu que a maioria deles tinha enormes dívidas (ou seja, gastavam muito mais do que conseguiam ganhar) e tipicamente financiavam estes déficits através de empréstimos no exterior. Muitos destes países também contavam com sistemas bancários com regulamentações precárias, contaminados pela negligência de empréstimos excessivos. A governança corporativa era fraca, com excesso de "camaradagem".

O trabalho de Roubini se destacou não apenas devido a suas conclusões, mas também por sua abordagem. Ao usar comparações entre nações e analogias históricas de maneira extensiva, ele estava empregando uma estrutura subjetivação técnica, tipicamente usada por economistas populares, como Paul Krugman, colunista do Times, e Joseph Stiglitz, para alcançar o público não-acadêmico.

Roubini se esforça em dizer que continua sendo um estudioso da economia, mas sua abordagem não é o ideal contemporâneo no qual um economista constrói um modelo, visando restringir suas impressões subjetivas, aceitando e executando um discreto conjunto de dados. O livro que Roubini escreveu recentemente (juntamente com o economista Brad Setser) sobre a crise nos mercados emergentes, intitulado "Bailouts or Bail-Ins?", não contem uma equação sequer em suas mais de 400 páginas.

EUA eram o próximo

Depois de analisar os mercados que entraram em colapso nos anos noventa, Roubini pôs-se a determinar qual seria o próximo país cuja economia sucumbiria às mesmas pressões. Sua resposta foi surpreendente: os Estados Unidos. Roubini se desanimou com o que viu na economia americana, especialmente seu déficit de US$600 bilhões em 2004.

Ele começou a escrever extensivamente sobre os perigos deste déficit, passando a diversificar o tema, pesquisando os vários efeitos da rápida expansão do crédito – incluindo a maior bolha imobiliária na história do país – que teve início quando o Fed baixou as taxas a quase zero em 2003. Roubini ficou convencido que a bolha imobiliária iria estourar.

No final de 2004 ele já tinha começado a escrever sobre "um cenário de pesadelo para os Estados Unidos". Ele prognosticou que investidores estrangeiros iriam parar de financiar o déficit fiscal e abandonar o dólar, levando à devastação da economia.

Quais são as ações na economia que Roubini vê no horizonte? Quando Jim Nussle, o diretor do orçamento da Casa Branca, anunciou no mês passado que a nação havia "evitado a recessão", Roubini ficou incrédulo. Há meses ele vem prevendo que os Estados Unidos irão sofrer os efeitos de uma recessão de 18 meses, que eventualmente será classificada como "a pior de todos os tempos, desde a grande depressão". Embora esteja confiante que a economia irá iniciar um processo de recuperação técnica até o final do próximo ano, ele afirma que o desemprego, falências corporativas e outros obstáculos ao crescimento irão continuar por anos.

Roubini aconselhou diversas autoridades, como líderes do Fed e oficiais de alto escalão do Departamento do Tesouro americano, para elaborar uma resposta agressiva à crise. Ele aplaudiu quando o banco baixou as taxas de juros de 5,25 a 2 por cento no início do último verão americano. Ele também apoiou a prontidão do Fed em planejar a aquisição da Bear Steans.

Ainda não acabou

Roubini argumenta que as iniciativas do Fed impediram uma catástrofe, embora afirme acreditar que ajudas financeiras futuras devem se concentrar nos mutuários, não nos investidores. Conseqüentemente, ele vê a escolha apresentada aos Estados Unidos como rigorosa, mas nada simples: ou o governo dá uma ajuda às hipotecas de alto risco de mais de trilhões de dólares (em troca do acordo dos concessores do empréstimo em reduzir as parcelas mensais), ou os bancos e outras instituições que detêm o controle destes empréstimos irão se afundar. "Ou nacionalizam os bancos ou as hipotecas, senão, todos estarão condenados", disse ele.

Há meses Roubini vem argumentando que o custo real da crise imobiliária não será de meros US$300 bilhões, mas algo em torno de trilhões de dólares. Na opinião do acadêmico, o mais importante é perceber que o problema é mais profundo do que a crise imobiliária.

"Pessoas negligentes se iludiram que a crise era apenas dos subprimes", ele me disse. "Mas temos problemas com dívidas em cartões de créditos, crédito educativo, leasing de automóveis, empréstimos para compra de imóveis comerciais, empréstimos corporativos que financiaram a compra da empresa por um dos sócios". Todas estas formas de débitos, ele argumenta, sofrem de algumas ou de todas as características que primeiramente vieram à tona no mercado imobiliário: garantias fracas, securitização, negligência por parte das agências de avaliação de crédito e vista grossa do governo. "Temos um sistema financeiro de subprimes, não um mercado imobiliário de subprimes", disse ele.

Roubini argumenta que grande parte das perdas destas dívidas irrecuperáveis ainda terá de ser cancelada, e somente as taxas dos maus empréstimos imobiliários podem ajudar a mandar centenas de bancos locais para os braços do Federal Deposit Insurance Corporation. "Cerca de um terço dos bancos regionais não irão resistir", ele prevê.

Em contrapartida, estes auxílios financeiros irão juntar centenas de bilhões de dólares a uma dívida federal gigantesca, e alguém, em algum lugar, terá de financiar esta dívida, juntamente com todas as outras dívidas acumuladas pelos consumidores e pelas corporações. "Nossos maiores financiadores são a China, a Rússia e os Estados do golfo", destacou Roubini. "Eles são rivais, não aliados". Os Estados Unidos, ele prosseguiu, provavelmente conseguirão sair da crise de alguma maneira, mas emergirão como uma nação diferente, com um lugar diferente no mundo. "Uma vez que você tem dívidas externas, você depende da bondade de estranhos", disse ele, pausando para dar lugar a um suspiro resignado. "Isto pode ser o início do fim do império americano".

(Stephen Mihm, professor assistente de história econômica da Universidade da Geórgia, é o autor de "A Nation of Counterfeiters: Capitalists, Con Men and the Making of the United States")

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