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quarta-feira, abril 02, 2008

Para ver uma bolha no mercado de ações estourando, olhe para Xangai


02/04/2008
Para ver uma bolha do mercado de ações estourando, olhe para Xangai

David Barboza*
Em Xangai, na China


Um ano atrás, investidores como Guan Ling estavam animadíssimos. Os preços das ações chinesas haviam disparado em mais de 500% em um período de dois anos, desencadeando um frenesi nacional de compras de ações.

Quando os especialistas alertavam periodicamente para a possibilidade do fenômeno ser uma bolha, os preços caíam momentaneamente, apenas para depois subirem ainda mais, batendo recordes e incitando mais uma corrida insana à compra estabanada de títulos.

"O mercado enlouqueceu", diz Guan, 49, que há alguns anos fechou as portas da sua corretora de imóveis para investir em ações em tempo integral. "Todo mundo falava sobre o quanto haviam lucrado, sobre quando tinham investido, e quais ações tiveram uma valorização de 20 ou até 30 vezes".

Qilai Shen/EFE - 11.mar.2008
Homens observam painel eletrônico com dados sobre câmbio em Xangai, na China

Isso foi no ano passado. O índice de cotações Shangai Composite Index sofreu uma queda de 45% a partir do seu pico, alcançado em outubro do ano passado. O primeiro trimestre deste ano, que terminou na segunda-feira passada com uma enorme liquidação de títulos, foi o pior da história deste mercado.

Subitamente, milhões de pequenos investidores que se aglomeravam nas corretoras de títulos, e passavam o dia inteiro jogando cartas, negociando ações, comendo macarrão e elogiando os mercados juntamente com outros especuladores e aposentados, passaram a sentir-se deprimidos e furiosos.

"Atualmente a minha família briga muito", queixa-se Zhang Liying, 55, garçonete aposentada de um hotel, cujo marido investiu toda a poupança da família no mercado de ações. "Ele me pediu para vender. Eu queria aguardar um pouco. Agora o meu marido me condena, dizendo que sou muito estúpida, e que foi por isso que perdemos a reserva financeira da nossa família".

Si Dansu está ainda mais perturbada, mas ela culpa o governo.

"Dediquei a minha vida inteira ao país. Após me formar fui para o interior, e trabalhei como engenheira em uma fábrica de Xangai até me aposentar. Investi quase toda a minha poupança e fundos de aposentadoria no mercado dez anos atrás. Mas agora estou sem um centavo. Todas as minhas ações despencaram".

Em outras partes da Ásia a situação também é tão ruim quanto a de Xangai, ou mesmo pior. Na Índia, os preços das ações caíram 31% em Mumbai. No Japão a queda foi de 31%, e no Vietnã, uma outra economia em expansão, a desvalorização foi de 53%. Investidores irados queimaram o retrato de um regulamentador de securities em Mumbai, e alguns não param de chorar na Cidade de Ho Chi Minh, no Vietnã.

"Muitos choraram", conta Nguyen Quang Tri, 74, gerente aposentado de uma companhia de cimento que estava visitando uma corretora de títulos na Cidade de Ho Chi Minh nesta semana. "Tenho as minhas próprias equities, mas a maioria das pessoas aqui tomou dinheiro emprestado nos bancos".

O colapso do mercado começou no final do ano passado, com o aumento das preocupações quanto à inflação doméstica e a uma crise financeira norte-americana. Agora, ainda que a economia chinesa esteja crescendo no seu ritmo mais acelerado em mais de uma década, os preços das ações despencaram, e na sua trajetória descendente esmagaram os pequenos investidores.

Poucos especialistas acreditam que a queda das ações constitua-se em uma grande ameaça ao crescimento na economia real daqui. Mas há temores de que uma queda prolongada possa reverberar pelos mercados financeiros da China - especialmente ao se considerar que um grande número de corporações desviou capital agressivamente, às vezes de forma sigilosa, para especular no mercado.

Segundo algumas estimativas, entre 15% e 20% dos lucros anunciados no ano passado por companhias que oferecem ações ao público em Xangai e que não estão envolvidas com o setor bancário ou financeiro (que geralmente investe em ações) originaram-se dos ganhos com o comércio de ações.

As companhias de setores de negócios primários, como a venda de eletricidade, ou mesmo de jaquetas esportivas, dedicavam-se a atividades financeiras extras nos mercados de valores, esperando aumentar os seus lucros.

"As companhias estavam com muito dinheiro excedente", diz Jing Ulrich, analista de mercado do JPMorgan em Hong Kong. "E grande parte desse dinheiro vazou de fato para o mercado de ações".

Mas as grandes companhias estavam seguindo a trilha dos pequenos investidores. O JPMorgan calcula que 150 milhões de pessoas na China investiram no mercado de ações chinês até o final do ano passado. Isso pode ser uma fatia pequena da população da China, que é de 1,3 bilhão de habitantes, mas trata-se ainda assim de uma quantidade muito grande, e isso gerou uma nova fonte potencial de descontentamento popular e um novo estilo de vida: o de investidor teimoso.

Chen Donghao é um convertido. Recém graduado, e com 22 anos de idade, ele atualmente é figura conhecida em uma corretora de títulos em Xangai.

Em abril de 2006, quando ainda era um estudante de desenho artístico, a sua família lhe deu cerca de US$ 70 mil para investir no mercado de ações.

Aquele era um momento ideal para entrar no mercado.

"Quando comecei, o mercado de ações estava por volta de 1.700 pontos", conta ele, observando que hoje, apesar da queda, o índice de Xangai ainda está elevado, em torno de 3.400 pontos. "Ganhei muito dinheiro. Portanto, no início deste ano decidi abrir um restaurante. Eu gostaria de criar uma rede de restaurantes famosos em Xangai".

Lojistas, corretores de imóveis, e até mesmo empregadas domésticas e vendedores de melancias tornaram-se investidores na Bolsa de Valores.

Uma nova versão do hino nacional surgiu no país no ano passado. Ela começa com os dizeres: "Levante-se! Você que não abriu uma conta! Despeje dinheiro e prata no mercado quente!"

O hino continua: "A nação chinesa enfrenta o seu momento mais alucinado. O rugido entusiasmado dos nossos povos se fará ouvir!"

As pessoas responderam. Aqui em Xangai, corretoras de ações com telas eletrônicas gigantes começaram a atrair grandes multidões, incluindo vários aposentados que se contentavam em passar o dia inteiro olhando hipnotizados a curva ascendente dos preços.

Em algumas corretoras, andares inteiros foram divididos em salas pequenas e médias nas quais os investidores pudessem se instalar, desde à abertura do pregão até ao soar da campainha de encerramento, com as suas sacolas de almoço, apetrechos para tricotar, baralhos e jornais para que se sentissem em casa.

Só que agora muitos deles não conseguem mais olhar para as telas.

"Estou pulando fora do jogo", diz Yuan Yuan, 23, um pesquisador de uma companhia de fundos de investimentos em Shenzhen que também investe no mercado. "O jogo acabou. As grandes instituições se mandaram primeiro, deixando apenas os pequenos investidores nesta atividade".

Na China, o governo teme que a ira dos investidores possa transformar-se em um problema social. E, assim, enquanto a mídia estatal anuncia os altos e baixos do mercado, e até mesmo alerta os investidores para os riscos e percalços inerentes aos investimentos, a imprensa geralmente não noticia a raiva do investidor.

"Na verdade há muitas reclamações, mas a mídia chinesa não pode anunciar isso", diz Guan, o ex-proprietário de uma corretora de imóveis.

Agora, nos corredores das corretoras de títulos - corredores de sofrimento - ouvem-se as reclamações quanto às deficiências do mercado: o governo não regulamenta o mercado de ações e participa dele ao permitir que a maioria das grandes companhias estatais coloquem as suas ações à venda para o cidadão comum.

Também há reclamações quanto às operações comerciais internas, à manipulação das ações e aos grandes investidores que possuem contatos junto ao governo, e que jogam as ações desvalorizadas nas costas dos pequenos investidores.

Mas, segundo os especialistas, na China o pequeno investidor também tende a ser um especulador, um apostador, e pode ser este o motivo pelo qual o mercado é tão volátil e impiedoso.

"Você conhece Warren Buffet?", pergunta Chen Weihua, um engenheiro aposentado de 69 anos que já trabalhou no Egito. "Ele é um mestre. Há muito tempo Buffet possui uma teoria para ficar com as suas ações durante muito tempo. Só que essa teoria não funciona na China. Veja a Ping An".

Ping An é uma companhia estatal que colocou as suas ações à venda no ano passado, a preços que dispararam até alcançarem US$ 144 em Xangai, e que depois despencaram. Ela agora vende a ação a US$ 50, apesar do forte aumento dos lucros.

Não se esperava que as coisas terminassem desta forma. Muitos investidores vinham apostando em que Pequim não permitiria que o mercado de ações entrasse em colapso antes das Olimpíadas de Pequim, em agosto.

Após os jogos, segundo o poderoso boato, todos venderiam, o que provocaria uma acentuada queda do mercado.

E se algo de grave acontecesse antes das Olimpíadas, o governo certamente faria algo para impulsionar o mercado.

Eles ainda estão aguardando.

"Este é um mercado deformado, um mercado doente", critica Guan. "Sempre fomos um mercado em declínio no longo e no curto prazo".

"Veja", diz ele. "Demorou dois anos para que se passasse de 1.000 para 6.000 pontos, mas apenas dois meses para que houvesse uma queda de 6.000 para 3.500 pontos".

*Keith Bradsher, na Cidade de Ho Chi Minh, no Vietnã, e Chen Yang, em Xangai, contribuíram para esta matéria.

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