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sexta-feira, abril 04, 2008

As contas externas entram na pauta

As contas externas entram na pauta

Coluna Econômica -04/04/2008

Até agora, a política econômica tinha um alvo apenas: a inflação. Agora tem dois: dívida externa e inflação.

Depois de reunião da qual participaram o Ministro da Fazenda Guido Mantega, o presidente do Banco Central Henrique Meirelles, os economistas Antonio Delfim Netto e Luiz Gonzaga Belluzzo, caiu a ficha de Lula de que, para o seu governo, uma crise cambial seria tão ou mais letal do que um aumento de inflação.

O que se passa no governo é o seguinte:

1. Há preocupação, de fato, com a inflação. Nos últimos meses os preços de alimentos começaram a subir, assim como de insumos básicos.

2. Mesmo assim, a deterioração rápida da balança comercial – em função do câmbio apreciado – poderá produzir uma crise cambial justamente em 2010, ano das eleições.

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Lula se move politicamente. Sua preocupação maior é minimizar riscos políticos provenientes da esfera econômica. A reunião serviu para incluir definitivamente a questão das contas externas na relação de preocupações do Palácio.

Mas no campo das ações econômicas, ainda há muito indefinição. Das conversas entre Fazenda e Banco Central, há consenso sobre a necessidade de um aperto fiscal, um corte nos gastos – aproveitando o excesso de arrecadação.

Há discussões sobre a oportunidade ou não de aumentar as taxas de juros. Aparentemente, o Banco Central está sendo convencido a aguardar mais dados antes de se decidir pelo aumento dos juros.

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De qualquer modo, os indicadores atuais de inflação permitem um sinal amarelo, ainda que tênue. Nos últimos meses houve aceleração do IPCA. O anual está aumentando mês a mês. Saiu de uma taxa anual de 2,96% em maio passado e, desde então, tem subido lenta mas progressivamente, até os 4,61% ao ano em fevereiro.

O IPCA com médias aparadas (retirando as maiores variações) está em 3,82% - em alta -, e o de "médias aparadas com suavização" (outra maneira de ler os dados) em alta, com 4,06 no anual até fevereiro. Com exceção dos preços monitorados, todos os demais têm registrado alta lenta, porém persistente.

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Mas as políticas alternativas – como a restrição ao crédito, para impedir a alta da Selic – aparentemente não serão implementadas.

A política econômica do governo Lula entra, agora, no seu teste mais importante. Até agora os ventos foram a favor e o Banco Central pode agir livre e irresponsavelmente na manipulação dos binômios juros-câmbio. Agora, terá que pegar no leme.

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A questão central é que a alta da taxa Selic impacta muito mais investimentos do que consumo.

As taxas de juros do crédito ao consumo têm enorme "spread" em relação à Selic. Portanto, o aumento de meio ponto percentual na taxa Selic anual pouco impactará as taxas finais de juros do crediário.

Já as taxas de linhas de investimento são afetadas diretamente pela Selic. Portanto, a elevação da Selic, além dos impactos sobre câmbio e sobre a dívida pública, pouco ajudariam a reduzir o aquecimento do mercado de crédito.

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O grande desafio da política econômica do governo Lula começará agora.

O pensamento do BC - 1

Segundo avaliação de pessoal da área econômica do BC, os técnicos do Banco Central não têm postura ideológica. São pessoas sérias que querem acertar. Só que, especialmente os provenientes do mercado, são suscetíveis às cobranças dos colegas. Há uma espécie de terrorismo sutil, de que eles serão vistos como fracassados se a inflação aumentar. A pressão se dá através de argumentos técnicos, mas exacerbados.

O pensamento do BC - 2

Hoje em dia, o BC está dividido. Sabe-se que há duas maneiras de corrigir os desequilíbrios nas contas externas: ou gradativamente ou esperando o estouro da boiada. Fazenda e BC caminham para um consenso. De um lado, a Fazenda aceita a inevitabilidade de um corte nos gastos. De outro, o BC aceitaria uma moderação maior na majoração dos juros. De qualquer modo, dependerá do BC mudar ou não de posição.

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