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segunda-feira, março 17, 2008

FMI vê economia do Brasil mais sólida e elogia Bolsa Família

O diretor do Departamento do Hemisfério Ocidental do Fundo Monetário Internacional (FMI), Anoop Singh, faz rasgados elogios à situação da economia brasileira e à condução da política econômica. Para Singh, o Brasil "está aproveitando os benefícios de políticas bem-sucedidas de estabilização, das reformas estruturais, da abertura externa crescente e da redução das vulnerabilidades", que permitiram ao país crescer a taxas mais elevadas, num cenário de inflação mais baixa e com redução da dívida pública em relação ao PIB. Sobram elogios também para o Bolsa Família, o principal programa social do governo Lula. "Em especial, o Bolsa Família ajudou a melhorar as bases sociais das políticas de crescimento, e as conquistas sociais são importantes para dar mais sustentabilidade à economia", afirma ele.

Singh vê o Brasil mais preparado para enfrentar a crise internacional, graças à robustez das contas externas, mas destaca que uma queda mais forte dos preços das commodities teria um efeito negativo sobre o país. "Como outros países emergentes de rápido crescimento, o sucesso do Brasil veio em grande parte da crescente integração aos mercados internacionais", lembra ele.

Singh participa hoje da conferência "Euro: Implicações Globais e Relevância para a América Latina", que contará com a presença, amanhã, de Lorenzo Bini-Smaghi, integrante do Comitê Executivo do Banco Central Europeu (BCE), entrevistado abaixo. A seguir, os principais trechos da entrevista com Singh, feita por e-mail.

Valor: O Brasil se tornou um credor externo líquido e as reservas superam os US$ 190 bilhões. A vulnerabilidade externa acabou?

Anoop Singh: O Brasil agiu muito bem nos últimos anos ao construir defesas fortes para se proteger de acontecimentos externos adversos, e o seu grande colchão de reservas é uma delas. O setor público é um credor externo líquido desde 2006. Como outros países emergentes de rápido crescimento, o sucesso do Brasil veio em grande parte da crescente integração aos mercados internacionais. Ao mesmo tempo que trouxe enormes benefícios, isso também significa que o Brasil, como outras grandes economias emergentes, é influenciada por acontecimentos e choques externos. Um forte declínio dos preços de commodities no contexto de uma severa desaceleração global provavelmente impactaria o Brasil e outros emergentes. Além disso, se houver um aperto significativo nas condições financeiras para os mercados emergentes, o custo de capital provavelmente aumentará.

Valor: O sr. acredita na tese do descolamento ("decoupling"), de que as economias emergentes não serão severamente afetados pela crise americana? Qual será o principal impacto da desaceleração americana sobre o Brasil?

Singh: Como eu disse, o Brasil está bem preparado para enfrentar os riscos de um cenário externo menos favorável. O regime de câmbio flutuante, a exposição baixa aos riscos cambiais do setor público e do sistema financeiro e um nível de reservas confortável sugerem que o Brasil está numa posição relativamente boa para um ambiente como esse. Embora os EUA não sejam o principal parceiro comercial do Brasil, uma desaceleração americana significativa e uma piora da turbulência financeira internacional devem ter um impacto adverso no crescimento global, afetando os parceiros comerciais do Brasil e, conseqüentemente, o país. Além disso, as condições de financiamento para o setor privado já apertaram na maior parte dos países emergentes, e ainda é muito cedo para saber a extensão total e as conseqüências da atual crise. Os preços de commodities se mantêm fortes até o momento, apesar da desaceleração americana. Nas últimas semanas, os preços de alguns produtos agrícolas que o Brasil exporta, como a soja, até mesmo subiram em dólar e os preços dos contratos de exportação do minério de ferro deverão subir consideravelmente neste ano. No entanto, o impacto sobre as cotações de commodities de uma desaceleração significativa da economia americana e de outros grandes importadores de commodities seria provavelmente negativo. Além disso, um número de mercados para os quais o Brasil exporta, e que também dependem pesadamente de exportação de commodities, seria afetado negativamente. Isso também poderia ter um impacto adverso sobre as exportações brasileiras.

Valor: Depois de cinco anos de superávits em conta corrente, o Brasil provavelmente terá um déficit neste ano, que alguns analistas já projetam em 1,5% do PIB. Esta é uma tendência preocupante?

Singh: No atual estágio de desenvolvimento, é esperado que um país como o Brasil tenha algum déficit em conta corrente. Em países emergentes, em que o o capital é relativamente escasso e os investimentos têm que ser grandes, retornos elevados sobre o capital tenderiam a atrair poupança externa. Isso é evidente no volume considerável de investimento estrangeiro direto que o Brasil está atraindo, e esses fluxos devem constituir uma fonte sustentável para qualquer déficit em conta corrente emergente. Eu ressalto também que as exportações brasileiras continuaram a crescer significativamente em 2007, tanto em volume quanto em valor. Não é surpreendente que as importações tenham crescido mais rapidamente, em linha com a forte demanda doméstica e, conseqüentemente, o superávit comercial tenha encolhido para 3% do PIB em 2007. Parte da força da demanda doméstica e das importações está ligada ao investimento elevado, o que vai ajudar a expandir a capacidade produtiva e de exportação do Brasil. Nós vemos um pequeno déficit em conta corrente em 2008, e esperamos que comece a haver uma moderação na expansão do volume das importações.

Valor: O Brasil cresceu 5,4% em 2007 e há sinais de que a atividade econômica continua forte no começo do ano. O sr. acha que esse nível de crescimento é sustentável?

Singh: Fundamentalmente, a economia brasileira está aproveitando os benefícios de políticas bem-sucedidas de estabilização, das reformas estruturais, da abertura externa crescente e da redução das vulnerabilidades. Em especial, uma administração macroeconômica adequada contribuiu para reduzir a inflação para níveis baixos, diminuir a relação dívida pública/PIB e melhorar o seu perfil e permitir uma forte queda dos juros reais e prêmios de risco, que eram historicamente altos. Houve uma mudança surpreendente no desempenho econômico do Brasil nos anos recentes. Como resultado, o crescimento aumentou. A economia ganhou impulso nos trimestres recentes, principalmente refletindo a força da demanda doméstica, incluindo um considerável crescimento do investimento privado, impulsionado pelos elevados preços de commodities e grandes fluxos de investimentos estrangeiros diretos. Os números mais recentes do PIB, como o resultado do quarto trimestre de 2007, são outra indicação da continuidade da força da economia brasileira. Números parciais mostram que o crescimento se manteve robusto nos primeiros meses de 2008. As perspectivas econômicas de curto prazo são em geral favoráveis, embora sujeitas ao ambiente externo, e o Brasil está certamente construindo capacidade para sustentar um crescimento elevado no médio prazo. Um fator-chave para essa última questão é promover melhoras adicionais no ambiente de investimentos, em infra-estrutura, na intermediação financeira e na eficiência da política fiscal.

Valor: Em que medida o mix da política fiscal, baseado em aumento das receitas e dos gastos públicos, limita o potencial de crescimento?

Singh: No longo prazo, é fundamental melhorar a capacidade de o governo canalizar o gasto para áreas prioritárias, como investimento em infra-estrutura e no alívio da pobreza, ao mesmo tempo mantendo a carga tributária no nível mais baixo e eficiente possível. Nesse caso, construir o consenso para as reformas é fundamental. O projeto do governo de reformar o sistema tributário é um outro passo importante nessa direção.

Valor: As contas externas estão robustas, as contas fiscais estão sob controle, o Brasil tem mais de US$ 190 bilhões de reservas, o país é um credor externo líquido, mas os juros reais continuam altos. Por que eles continuam elevados?

Singh: Eu ressaltaria o ponto oposto. Os juros reais e nominais caíram significativamente nos últimos anos, refletindo o sucesso de políticas macroeconômicas sólidas e a redução nas vulnerabilidades. Eu acrescentaria, no entanto, que a experiência empírica de outros países nos mostra que leva tempo para reduzir os juros reais. Vários fatores estruturais estão interligados e leva tempo para influenciá-los. No Brasil, os projetos para aumentar a eficiência da intermediação financeira também devem ter resultados.

Valor: Quais os principais desafios para a economia brasileira nos próximos anos?

Singh: Primeiro, o Brasil talvez tenha que se adaptar a um cenário externo menos favorável nos próximos anos. É muito cedo para dizer como os preços de commodities vão evoluir, mas há uma possibilidade de que, à luz da desaceleração global, possam cair dos níveis elevados dos últimos anos. Além disso, a turbulência financeira global pode ter efeitos negativos sobre o Brasil, incluindo um aperto nas condições de financiamento. Segundo, continuar a reduzir as vulnerabilidades macroeconômicas restantes. Nos últimos anos, ajudou o fato de que as elevadas receitas fiscais foram usadas para avançar na redução da dívida pública e na melhora de sua composição e maturação. Terceiro, os indicadores do setor financeiro permanecem saudáveis, mas o rápido crescimento do crédito nos últimos anos deve ser monitorado de perto, como o governo tem feito, para se ter certeza de que o aumento da intermediação ocorre num ritmo prudente. Quarto, e em comum com outros países emergentes de crescimento rápido, o Brasil deverá buscar maior flexibilidade em sua economia, melhorar a atratividade do ambiente de negócios e aumentar o apoio à infra-estrutura. Por fim, a continuidade das reformas econômicas em todos os países requer forte consenso social. O Brasil tem agido bem nesse aspecto, distribuindo os benefícios do crescimento, reduzindo desigualdades e fortalecendo de modo generalizado a rede de proteção social. Em especial, o Bolsa Família ajudou a melhorar as bases sociais das políticas de crescimento, e as conquistas sociais são importantes para dar mais sustentabilidade à economia.

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